Portugal acumulou um défice habitacional de cerca de 300 mil fogos ao longo da última década, segundo o Banco de Portugal.

O número corresponde ao diferencial entre a nova oferta de habitação criada nos últimos dez anos e aquela que teria sido necessária para responder ao aumento da procura. O governador do Banco de Portugal, Álvaro Santos Pereira, classificou-o como "verdadeiramente impressionante".

Para ilustrar a dimensão do problema, o banco central compara o défice a praticamente tantas casas quanto as que hoje existem no concelho de Lisboa, ou mais do dobro das que há no Porto.

Défice acumulado, última década~300 mil fogos
Fogos concluídos em 2025~26.700
Fogos concluídos em 202425.300
Fogos concluídos em 202323.100
Fogos concluídos em 2007, antes da crise67.500

Um hiato que travou, mas não fechou

Segundo o Boletim Económico de junho do banco central, o ritmo de construção insuficiente da última década gerou o défice de 300 mil habitações, mas esse hiato foi travado em 2025. O relatório considera que esta convergência deverá contribuir para uma estabilização das pressões sobre os preços associadas a fatores demográficos.

Os analistas do banco central alertam, no entanto, que esta inversão é apenas um primeiro passo. Um défice acumulado ao longo de uma década não se apaga num único ano.

Comparação com Espanha e a média europeia

Um estudo do Banco de Espanha, citado pelo Financial Times, situa o défice português em cerca de 300 mil casas entre 2021 e 2025, o equivalente a 6,6% dos agregados familiares existentes no país em 2025. Em Espanha, a diferença acumulada é estimada em 750 mil habitações, ou 3,7% dos agregados familiares. Na média da zona euro, o valor corresponde a apenas 0,5%.

O Banco de Portugal aponta três fatores estruturais por trás do desequilíbrio: um choque demográfico, uma oferta que reage lentamente, e a forte atratividade da habitação como aplicação de poupança.

A ênfase deve ser colocada em medidas do lado da oferta, dado que a falta de oferta está na origem do défice acumulado.
Nota de verificação Os números citados combinam duas fontes distintas que chegam a valores próximos por caminhos diferentes: o Banco de Portugal, no Boletim Económico de junho de 2026, e um estudo do Banco de Espanha citado pelo Financial Times. Ambos apontam para cerca de 300 mil fogos, mas com metodologias e períodos de referência não totalmente coincidentes.